Ciência pela diversidade: no Dia do Orgulho LGBTI+, o PPGSC celebra pesquisas que defendem o direito à saúde

30/06/2026 10:23

No último dia 28 de junho celebrou-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, marco global de afirmação da diversidade, da visibilidade e da resistência. Mais do que uma data festiva, é um momento essencial para relembrar a longa luta por direitos e o combate cotidiano à violência e ao preconceito.

O Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aproveita a data para relembrar parte de suas pesquisas recentes e de seus grupos de estudo que produzem ciência em favor dessa comunidade. O trabalho atravessa as três grandes áreas estruturantes da Saúde Coletiva — a Epidemiologia; a Política, Planejamento e Gestão em Saúde (PPGS); e as Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) — e revela como o conhecimento produzido na universidade pública pode iluminar desigualdades históricas e apontar caminhos para a equidade.


Política, Planejamento e Gestão em Saúde

UFSC coordena estudo nacional pioneiro sobre atenção básica à saúde da população LGBTI+

Sediada no PPGSC e desenvolvida em parceria com outras quatro universidades públicas, uma nova pesquisa vai avaliar a qualidade da atenção em saúde destinada à população LGBTI+ em cinco municípios brasileiros. O projeto “Caminhos para a equidade: avaliação da atenção em saúde para pessoas LGBTI+ na atenção primária” conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Edital Universal (CNPq/MCTI/FNDCT nº 44/2024).

A proposta vai identificar barreiras de acesso, desafios estruturais e estratégias para qualificar os serviços no âmbito da Atenção Primária à Saúde. A iniciativa é realizada em parceria com as universidades federais do Mato Grosso do Sul (UFMS) e do Amapá (Unifap) e com as estaduais de Maringá (UEM) e do Amazonas (UEA).

Coordenado pela professora Josimari Telino de Lacerda, do Departamento de Saúde Pública, e pelo mestre egresso do PPGSC André Inácio da Silva, o projeto reúne uma equipe multidisciplinar que atuará em colaboração interinstitucional, fortalecendo redes de pesquisa e ampliando o impacto científico e social da investigação. A execução está prevista para três anos, nas cidades de Florianópolis (SC), Três Lagoas (MS), Macapá (AP), Manaus (AM) e Maringá (PR).

O trabalho deverá contribuir para a compreensão e o enfrentamento dos desafios históricos e estruturais enfrentados pela população LGBTI+ no Brasil no que diz respeito ao acesso à saúde. Um dado emblemático ilustra a urgência: a expectativa de vida das pessoas trans é de cerca de 35 anos, enquanto a média nacional é de 77 anos — reflexo, na análise da equipe, da violência, da discriminação e da exclusão social.


Epidemiologia

UFSC lidera pesquisa nacional pioneira sobre saúde bucal da população trans

Um estudo pioneiro conduzido pela UFSC revelou um panorama preocupante sobre a saúde bucal da população transgênero atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Florianópolis. A discriminação aparece como uma das principais barreiras: entre os participantes da pesquisa, 70% relataram já ter sido alvo de preconceito ao buscar atendimento odontológico, e 54% abandonaram o tratamento em função dessa dificuldade. Altos índices de cáries não tratadas, perda dentária e problemas periodontais também foram observados, evidenciando que a falta de políticas públicas específicas impacta diretamente a qualidade de vida desse público.

A inexistência de dados populacionais sobre as pessoas trans, a invisibilidade dos problemas de saúde bucal dessa população e a urgência na definição de serviços específicos impulsionaram a ampliação da pesquisa feita em Florianópolis. De abrangência nacional, o estudo Transbucal Brasil é liderado por pesquisadores da UFSC em parceria com outras universidades, movimentos sociais e a comunidade trans nas cinco regiões brasileiras.

Segundo a professora Andreia Morales Cascaes, do Departamento de Saúde Pública da UFSC, há poucos estudos que tratem da saúde bucal das pessoas transgênero considerando as especificidades desse público.

“Não temos dados oficiais em pesquisas como o Censo, ou em pesquisas nacionais que revelem dados epidemiológicos. Estimamos, por exemplo, que a população trans no Brasil seja composta por 2% de toda a população brasileira, o que dá aproximadamente 4 milhões de pessoas. Mas esta é uma estimativa baseada em estudos mundiais, pois não há dados oficiais no país”, ressalta a pesquisadora, que coordenou a pesquisa Transbucal em Florianópolis e lidera o estudo nacional.

A população trans enfrenta uma situação de invisibilidade tanto na saúde geral quanto na saúde bucal. Nem mesmo a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais contempla a saúde bucal desse grupo, e serviços transespecíficos do SUS — como o Ambulatório Trans de Florianópolis — não preveem a inclusão de equipes de saúde bucal.

“As pessoas trans enfrentam uma série de barreiras para acessar serviços de saúde de modo geral, e a situação é mais dramática do ponto de vista da saúde bucal. Eu costumo dizer que, para as políticas públicas, a população trans não tem boca”, ironiza Andreia. “Nós advogamos por esse princípio de inclusão social, da saúde bucal como um direito social. Para chegar nisso, é preciso ter dados que nos permitam entender, de forma precisa, a necessidade de olhar para a saúde bucal desse público específico.”


Ciências Sociais e Humanas em Saúde

Epicenes: pesquisa, formação e diálogo com os movimentos sociais

Vinculado ao PPGSC, o Epicenes – Núcleo de Estudos em Gênero e Saúde reúne pesquisadoras e pesquisadores que produzem ciência nas temáticas de gênero e diversidade sexual aplicadas à saúde. O núcleo se constitui também como espaço formativo para profissionais de saúde e das ciências sociais e como ponto de articulação junto aos movimentos sociais. A coordenação é do professor Dr. Rodrigo Otávio Moretti-Pires.

Entre os diversos projetos de pesquisa desenvolvidos pelo grupo, destacam-se:

  • Experiências de Parentalidades de Pessoas LGBTI+ no Sistema Único de Saúde: acesso universal?
  • “Se joga na Ciência!”
  • “A violência direcionada aos corpos travestis e a pandemia da Covid-19: relatos de experiência”
  • Reconhecimento social e saúde da população LGBT
  • Saúde LGBT e os impactos da Covid-19
  • Saúde LGBTI+ na formação do ensino superior

Mais informações estão disponíveis no site do núcleo: epicenes.paginas.ufsc.br.

Do NUPEBISC, um livro sobre direitos reprodutivos e transinclusão

No âmbito do NUPEBISC, destaca-se o lançamento do livro do egresso do PPGSC Dr. Ricardo Nascimento: “Da ginecologia para a mulher à ginecologia transinclusiva: direitos reprodutivos e acesso à reprodução assistida para homens trans no Brasil”.

A obra é produto da tese de doutorado “Direitos reprodutivos e acesso à reprodução assistida para pessoas transmasculinas e homens trans no Brasil — políticas públicas, perspectiva médica e transvivências”, orientada pelo professor Fernando Hellmann e coorientada pela professora Olga Regina Zigelli Garcia.


Ao reunir essas frentes de trabalho, o PPGSC reafirma um compromisso que está no coração da Saúde Coletiva: produzir ciência que reconheça desigualdades, dê visibilidade a quem historicamente foi invisibilizado e contribua para um SUS verdadeiramente universal, equânime e integral. Neste 28 de junho, celebrar o orgulho também é celebrar o direito de todas as pessoas à saúde.