Junho Violeta: pesquisa do PPGSC/UFSC revela que 1 em cada 4 idosos de Florianópolis sofre violência
Em junho, o país se mobiliza em torno do Junho Violeta, campanha dedicada à conscientização e ao combate à violência contra a pessoa idosa. A data de referência é 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído pela ONU. A mobilização, promovida no Brasil pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania sob o lema “Respeito a todas as fases da vida” , busca alertar a sociedade sobre as diferentes formas de abuso: negligência, violência física, psicológica, patrimonial e a exploração financeira.
Os números nacionais são alarmantes. Dados do Observatório Nacional dos Direitos Humanos apontam 121 mil situações de violência contra pessoas idosas notificadas entre 2018 e 2022. As denúncias ao Disque 100 revelam um padrão que se repete: a maioria das vítimas são mulheres (58,6%), os principais agressores são os próprios filhos e filhas (29,5%) e o local mais comum das agressões é a residência da própria vítima (71,5%). Ou seja: a violência contra o idoso é, antes de tudo, doméstica , ou seja, praticada por quem deveria cuidar.
O que a ciência produzida no PPGSC/UFSC mostra
É justamente esse fenômeno que está no centro da tese de doutorado da Dra. Carolina Carvalho Bolsoni, defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFSC, em 2017, sob orientação da Profa. Dra. Elza Berger Salema Coelho, líder do Grupo de Pesquisa Violência e a Saúde. Intitulada “Violência contra a pessoa idosa: estudo de base populacional em Florianópolis – SC”, a pesquisa oferece evidências locais que dialogam diretamente com o alerta do Junho Violeta.
O estudo utilizou dados da coorte EpiFloripa Idoso, projeto coordenado pela Profa. Eleonora d’Orsi que, desde 2009, acompanha as condições de vida e saúde da população adulta e idosa da capital catarinense. Foram analisados 1.140 idosos residentes na zona urbana de Florianópolis, na onda de 2013-2014, por meio da adaptação transcultural do instrumento Hwalek-Sengstock Elder Abuse Screening Test (H-S/EAST), específico para rastrear maus-tratos.
O principal achado impressiona: a prevalência de violência foi de 25,7% — ou seja, aproximadamente um em cada quatro idosos da cidade relatou alguma situação de violência. Entre os idosos de 60 a 74 anos, o percentual sobe para 29,5%; entre os de 75 anos ou mais, é de 20,3%. Por sexo, foram 27,9% entre os homens e 24,4% entre as mulheres.
A tese mostrou ainda que a violência não atinge a todos de forma igual. Entre os idosos com mais de 75 anos, ter mais pessoas dependentes da própria renda, ser de cor parda ou preta, não trabalhar, apresentar déficit cognitivo, ter dificuldade para realizar atividades da vida diária e possuir cuidador estiveram associados a uma chance maior de sofrer violência. O dado reforça o retrato nacional do Disque 100: a vulnerabilidade e a dependência dentro de casa são terreno fértil para o abuso.
A relação entre violência e saúde mental
O resultado mais contundente da pesquisa diz respeito à saúde mental. Entre todas as condições de saúde analisadas, a suspeita de sintomas depressivos permaneceu fortemente associada à violência: a chance de sofrer abuso foi 280% maior entre as mulheres e 190% maior entre os homens com esses sintomas. O achado evidencia que violência e adoecimento psíquico caminham juntos — e que cuidar da saúde mental do idoso é também uma estratégia de proteção.
Por que isso importa
A tese de Bolsoni reforça uma mensagem central do Junho Violeta: a violência contra a pessoa idosa é frequente, ocorre majoritariamente no ambiente doméstico e está longe de ser excepcional. Ao produzir evidências de base populacional sobre Florianópolis, o trabalho — ancorado no EpiFloripa Idoso e no PPGSC/UFSC — fornece subsídios concretos para políticas públicas de prevenção, exatamente como recomenda o Estatuto da Pessoa Idosa.
Diante de um Brasil que envelhece rapidamente — estima-se que, em 2070, a proporção de idosos ultrapasse 35% da população —, a autora defende a urgência de novos estudos, inclusive longitudinais, capazes de medir o impacto da violência sobre a saúde e a sobrevida dessa população.
Denuncie. A violência contra a pessoa idosa pode ser denunciada gratuitamente, 24 horas por dia, pelo Disque 100, também disponível em Libras e pelo WhatsApp (61) 99611-0100.











